Um antigo dirigente do futebol do Marco e ex-sócio de Avelino Ferreira Torres assumiu quarta-feira no tribunal que foi mediador de um encontro entre o ex-autarca e José Faria, numa altura em que este atravessava grandes dificuldades financeiras.
Jorge Sousa, que prestou declarações na qualidade de testemunha arrolada pela defesa do ex-presidente da câmara do Marco de Canaveses, disse ao tribunal "que fui, e ainda sou, muito amigo do Zé [José Faria]" e que intercedeu por ele junto de Avelino Ferreira Torres, numa altura em que os dois já andavam de relações tensas.
O agora emigrante em Angola – país onde está a "tentar refazer a sua vida como empresário", segundo contou ao tribunal – afirmou que marcou um encontro com Torres em Águas Santas, arredores do Porto, sem lhe ter dado conhecimento de que levaria Faria consigo.
"Sabia que ele [José Faria] estava em situação financeira catastrófica, mas no fundo, no fundo, nunca consegui chegar ao problema", disse a testemunha, ao tentar explicar as causas das dificuldades financeiras de José Faria.
Nesse encontro, que ocorreu "por altura do Natal de 2006", Jorge Sousa contou que Ferreira Torres "deu a José Faria 50 contos [250 euros]" e que este apenas "lastimava a sua situação" e "chorava".
Ainda segundo a testemunha, passada a surpresa inicial de Ferreira Torres por confrontar-se com José Faria, o antigo autarca apenas comentava para o seu antigo subordinado na câmara: "O que fazes a tanto dinheiro? O que fazes ao dinheiro".
A delicada situação financeira de José Faria justificou que marcasse o encontro com Ferreira Torres.
Jorge Sousa testemunhou "que Faria lhe pedia que o ajudasse" e "que o amigo lhe dizia que andavam uns ciganos à volta dele, que o ameaçavam de morte se não lhes pagasse".
"Senti-o [José Faria] desesperado e decidi ajudá-lo", acrescentou.
Na sessão de quarta-feira, o tribunal do Marco de Canaveses ouviu ainda José Teixeira, um funcionário da autarquia e antigo dirigente da Irmandade do Castelinho [a entidade que trata do culto do local], justificar a necessidade de novas acessibilidades ao santuário e também um técnico superior da câmara com responsabilidades no planeamento e ordenamento do território, Almir Silva.
Este engenheiro civil disse ao tribunal que "ninguém pode, em bom senso, garantir quaisquer alterações do uso dos solos sem aquelas estarem aprovadas e publicadas".
Perguntado pelo procurador do Ministério Público sobre se Avelino Ferreira Torres poderia influenciar alterações do PDM (Plano Director Municipal) para eventuais compras de terrenos, Almir Silva foi taxativo: "Claramente que não".
Na parte final da sessão, Avelino Ferreira Torres quis justificar a estrada construída para melhorar as acessibilidades ao santuário do Castelinho, mas emocionou-se por diversas vezes, estado que justificou "por ser católico" e "lhe custar falar do Castelinho".
"Relativamente a insinuações que andam no ar... só posso dizer-lhes [aos supostos autores] que Nossa Senhora vai proteger-nos", afirmou.
O antigo presidente da Câmara do Marco de Canaveses responde neste processo, iniciado em Abril, por seis crimes – um de extorsão, um de corrupção, três de abuso de poder e um de peculato de uso.
O julgamento prossegue a 03 de Dezembro.